Informações Gerais
O Brasil de Portinari
Discurso de João Candido Portinari na Abertura — Museu Nacional da China (MNC), Pequim
"Exmo. Senhor Embaixador do Brasil, autoridades presentes, estimados diretores, curadores e parceiros, queridas amigas e queridos amigos aqui reunidos, bom dia a todos. Nǐ hǎo.
O grande mestre chinês Lu Xun escreveu uma vez: "Apenas o que é profundamente característico de uma nação pode verdadeiramente pertencer ao mundo".
É com esse espírito que trazemos hoje a Pequim a poderosa epopeia de Candido Portinari, que traduz em cores e formas a própria alma do povo brasileiro.
Minha gratidão à diretoria do Museu Nacional da China, representada pelo Dr. Luo Wenli, por nos acolher com tanta generosidade, e aos curadores Zheng Ye, Baihui Li e Stacy He. Agradeço à equipe da Expomus, a Marcello Dantas, à equipe do Projeto Portinari e ao Governo Brasileiro.
Expresso também nosso reconhecimento à Petrobras, nossa patrocinadora master, cujo patrocínio tornou este evento possível, seguido pelo patrocínio do Grupo Pátria, nas pessoas de seus co-fundadores Alex Saigh e Olimpio Matarazzo, e pela assessoria jurídica do Escritório Veirano Advogados.
Oferecer o legado de Portinari é convidar o povo chinês a conhecer a essência de quem somos e de quem aspiramos ser como nação.
Outro grande mestre desta terra, Wu Guanzhong, dizia que "a arte é como uma pipa: voa alto, mas a linha deve estar sempre presa à terra".
Meu pai levou essa verdade a sério. Ao pintar as pessoas simples, os trabalhadores e os retirantes de sua Brodowski natal, ele descobriu uma linguagem que transcende fronteiras e fala diretamente a toda a família humana.
Foi precisamente no exterior, sob a luz da Paris nos anos 1920, que ele compreendeu que precisava voltar os olhos para a sua pequena Brodowski para, finalmente, ser capaz de ver o mundo.
Ele frequentemente me falava sobre a chegada mágica do circo em seu vilarejo, e de como o palhaço marcava uma cruz de carvão na testa das crianças. Aquela marca simples era o "passaporte" delas para a magia. Essa mesma pureza e profunda esperança permeiam cada pincelada nestas galerias.
A arte de Portinari era guiada por uma sinceridade feroz. Um exemplo profundo está em sua, Os Despejados. No fundo daquela cena devastadora de sofrimento, ele pintou um pequeno burro azul. Quando questionado por que um burro azul em uma paisagem tão trágica, deu uma resposta que define toda a sua vida: "Porque a poesia deve existir". Para ele, aquele toque de azul era uma mensagem deliberada de esperança.
Esse sofrimento humano universal chamou a atenção do grande poeta Louis Aragon em sua histórica exposição em Paris, em 1946. Diante de telas que vinham de tão longe, mas que chegavam a uma França que ainda sangrava com os horrores da Segunda Guerra Mundial, Aragon reconheceu que aquela dor pertencia a toda a humanidade. Tomado de profunda emoção, ele afirmou que Portinari não era recebido ali como um estrangeiro, mas sim como "um dos nossos".
Foi precisamente para preservar essa voz corajosa e universal que criamos o Projeto Portinari, que há 47 anos cataloga, pesquisa, e transforma esta memória histórica em uma força viva.
Um antigo provérbio chinês nos diz sabiamente: "A amizade não conhece distância; dez mil milhas são menos que uma batida de coração".
Sentimos o significado profundo dessas palavras quando recentemente tivemos a honra de receber uma distinta delegação chinesa em nossa casa, que nos presenteou com um lindo pergaminho tradicional.
Hoje, dentro das magníficas paredes do Museu Nacional da China, aquele pergaminho ganha vida, e as dez mil milhas são completamente abolidas.
Através do olhar atemporal de Candido Portinari, o Brasil e a China se encontram no amor pela terra, no respeito pelos trabalhadores e na fé inabalável na alma humana.
Que esta exposição seja uma ponte de afeto, memória e profunda compreensão entre as nossas nações.
Muito obrigado. Xièxie."

